Arte é viver

É preciso compartilhar,nenhum homem é uma ilha www.flickr.com/photos/bernadethrocha www.bernadethrocha.deviantart.com

Arte é viver

É preciso compartilhar,nenhum homem é uma ilha www.flickr.com/photos/bernadethrocha www.bernadethrocha.deviantart.com
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Terra Blog

08.03.09

Socorro! Cadê meu tempo???

" Ô, Tia! Você não atualiza mais seu blog???" assim reclamou com razão meu sobrinho querido Saulo. É verdade. Quero meu tempo de volta. Sei que continuo unica dona de minhas preciosas 24 horas, mas a sensação que tenho é que não consigo retê-las em meu poder. Sentar-me deliciosamente em frente ao computador então, parece sonho quase impossível.Mas... Esta semana surgiu uma oportunidade de expor no Shopping Sorocaba, A semana passou rapidinho e hoje é o ultimo dia .Como sempre conheci pessoas maravilhosas que ficarão guardadas em minha memória e farão parte de minhas histórias (e como gosto de contar histórias!) Como me emocionei ao ver uma senhora que após ficar uns quinze minutos olhando o quadro 'Meu Mundo Prefeito- a casa em que nasci ' se desmanchou em lágrimas. Fui conversar com ela , e precisei esperar ela se recompor, tamanha era sua emoção. Então ela me disse que fizera uma viagem ao passado, onde reencontrou a casa em que ela nasceu em Itapeva, seus pais, seus irmãos, suas brincadeiras de infância...Mais emocionada ela ficou quando lhe disse que aquela era a minha infância. São coisas assim que me fazem me sentir realizada e a sensação de que fiz o que era pra ser feito. Sei que ela não compraria meu quadro, inclusive ele não está à venda,. (se quisesse já o teria vendido muitas vezes. ) Mas aquele momento de emoção ficou impregnado junto às pinceladas multicoloridas , em cada pontinho que faz parte da história desse Meu Mundo Perfeito. Espero que hoje seja, mais uma colheita de belas histórias para contar. E não se preocupe, Saulo, eu volto. Mil beijos pra você. Saiba que eu te amo, e que se pudesse, você estaria sempre ao meu lado, fazendo parte de minha história, e eu da sua. Quem sabe um dia ...Você sabe de meus sonhos eternos... Bernadeth Rocha

26.11.08

Flanboiants na primavera


Sempre aguardo o mês de novembro com uma certa expectativa...
-Será que este ano eles estarão em plena florescência?
E saio à caça dos flamboiants! Infelizmente constatei que este ano, por algum motivo (às vezes é a falta da chuva, às vezes excesso, não entendo muito disso ) eles não estão com toda a beleza que é peculiar á espécie.
Sempre houve flamboiants em minha vida, curiosidade despertada pela música do Roberto Carlos: " ...meu flamboiant na primavera, que bonito que ele era dando sombra no quintal..."
- Flamboiant? Que que é isso?
Foi quando os conheci e eles passaram a ser minha árvore predileta.Lembro-me  em especial de uma árvore de flores laranja, que até hoje deve estar imponente no pátio da escola Barcelona em Sorocaba. Todo ano ela carregava espetacularmente, árvore imensa de galhos longos que pareciam abraçar o telhado da Escola, contrastando com o infinito céu azul. Gostava de subir quarteirão acima para poder observar sua copa do alto. Considerava-a um presente de Deus para mim, só para mim, pois sentia  que só eu a via naquele momento.
Outro momento inesquecível em elas estiveram presentes, foi em 92. Um certo domingo, resolvemos levar os filhos para um passeio na estrada que liga Itú à Cabreuva, estrada cheia de curvas que margeia o pobre Rio Tietê, espumando por causa da poluição. (as crianças acharam lindo os blocos de espuma mal cheirosa que rolavam na correnteza e às vezes o vento levantava no ar). De repente, todas gritaram que tinham visto um outdoor: "Fazenda da Serra. Chocolates" Voltamos e conhecemos a bela fazenda de mais de 250 anos que se tornara ponto turístico. Enquanto eu e meu marido ficamos sentados à sombra de grandes flamboiants floridos( creio que lá se encontram umas dez árvores) as flores vermelhas pontilhando o verde do gramado, as crianças se divertiram com os pequenos animais da fazenda, comeram doces e correram até se cansar. Também não me esqueço que foi quando pude ver de perto uma roda d'água . Já havia pintado algumas mas nunca as tinha visto uma  de verdade.  Foi um domingo maravilhoso e inesquecível e que ficou guardado na memória de meus filhos. De vez em quando voltamos lá. Inclusive  pintei ao vivo o lindo casarão que fez parte de minha exposição "Casas, Casarões e seus quintais" no ano 2000.
Porém , hoje, na minha caminhada matinal, fui ver os flamboiants que conheci quando vim morar aqui. Encontrei-os mutilados, desfigurados pelo machado. Embora ainda haja muito verde em volta deles, estão aprisionados ao longo de uma avenida movimentada. Apenas um deles, num esforço final , gemeu algumas flores, como uma lembrança dolorida de outras primaveras. Parecem ser apenas um lamento, um protesto pela triste situação que se encontram.
Ainda vou espalhar sementes por aí, quero dar minha contribuição e cumprir meu papel como protetor da terra, visto ser este  o papel fundamental do ser humano. 
"-Por que a terra não é assim tão florida?"
"-Por que os homens se esqueceram de lançar as sementes."
Que triste realidade!

                                                                            Bernadeth Rocha

Quadro: Fazenda da Serra de Bernadeth Rocha, quadro que fez parte da exposição "Casa, Casarões e seus Quintais"

02.11.08

Rillary Cristini

Muitas vezes conhecemos pessoas que brilham como se fossem pequenas, mas significativas estrelas num céu escuro. São pessoas especiais, que conseguem se destacar numa geração cada vez mais  massificada , que aos poucos vai perdendo sua própria identidade e se tornando como fantoches nas mãos de um ventríloquo.
Essa pequena estrela é assim: brilha intensamente , tanto quanto o brilho de seus olhos escuros.  Tem apenas 9 anos ( " Tenho nove, mas já vou fazer dez.") e sempre que volta da escola, (ela estuda de manhã) entra em meu atelier, algumas vezes me traz uma flor ( "para servir de modelo") outras vezes só para dar um beijinho. A tia que vai apanhá-la na escola, espera pacientemente , pois sempre está correndo para terminar de preparar o almoço e precisa chamá-la várias vezes. Rillary gosta de conversar sobre arte. Diz que também pretende ser artista , que no momento está gostando de desenhar , mas já sabe pintar em tecido e pretende entrar no nosso curso de pintura. Diz que gosta de ficar  no atelier, pois ali pode apreciar a arte. Seus lindos olhos escuros são  observadores. Pergunta sobre os quadros, as técnicas, o que estou pintando agora. De repente ela não apareceu mais. Encontrei com ela na rua, e então me contou que a tia estava indo por outro caminho, mais rápido. Mas, vez por outra ela aparece. Num desses dias, ela chegou com seu sorriso cativante, e me contou que estava vindo da biblioteca. Estava com o livro "O relógio da sala.  " ; disse que se pudesse ia lá todos os dias.
Me fez lembrar de minha infância e adolescência, quando sentia grande prazer em sentar num cantinho qualquer da escola Odilon onde estudava , ou numa calçada nos fundos de minha casa e ali devorava livros: romances (como o  inesquecível " Por aqui não passaram rebanhos..." de Moacir C. Lopes) , poesias, contos e crônicas; as vezes por falta de opções lia enciclopédias. Achei incrível encontrar alguém com essa idade  tão fã de livros; sei que   tais ainda  existem , mas estou tão acostumada a conversar com jovens e crianças que não querem ler  mais nada, mal acostumados que estão com a tv e   o computador. Consequência da mentalidade imediatista de hoje que quer tudo rápido , sem tempo para assimilar e  digerir a informação , coisas  que a leitura exige.  Contei a ela como na sua idade eu também era assim e a incentivei a escrever .
-" Mas eu já escrevo! Quer ouvir uma poesia minha?
 -"Claro que quero."
-" Chama- se 'Pulo no céu'

Pulo no céu, pulo no mar azul.
Pulo, pulo, pulo...
Pulo em tudo sem rumo.
Não sei pra onde vou,
nem sei o que vou fazer...
 e agora,
o que vou fazer no meu futuro?
Como saber???
 
Fiquei encantada! Profundo para uma garotinha de 9 anos.Você não acha? Senti-me também feliz, cansada que ando com as notícias que nos bombardeiam. Também por ver que no meio de uma geração indiferente, há pequenas estrelinhas que brilham e que refletem sua luz na escuridão.


                                                                                 Bernadeth Rocha

09.10.08

Uma festa para os olhos.

Sempre aguardo com expectativa a florescência das árvores em frente ao meu atelier. Já perguntei à muitos para descobrir o nome delas, mas ninguém sabe; pensei em procurar no google, mas por falta de tempo acabou ficando.  As " minhas" são idosas, velhas senhoras  cobertas de musgo e parasitas que muitas vezes derrubam galhos porque estão apodrecendo( interessante que as conheci criança, num passeio que vim fazer a esta cidade com uma de minhas irmãs, que namorava um rapaz daqui. Com meus novos amigos, corremos pela sombra delas em intermináveis brincadeiras. Por coincidência,  hoje moro aqui e meu atelier é nessa praça) .

Mesmo assim, vem o inverno e desnuda seus galhos, que como braços abertos se erguem para o céu. De repente, quase sem que se perceba elas se cobrem de verde e começam a produzir milhares de pequenas flores amarelas que caem ao sopro da mais leve brisa.

Desta vez então, com esta primavera atípica, com este vento e frio de Outubro o espetáculo está sendo ainda maior.

Terça à noite, um vento forte soprou e houve uma nevasca, pois as flores são tão leves como flocos de neve que descem rodopiando no ar. Em poucos minutos a calçada, o gramado, os bancos ficaram amarelos, transmitindo uma sensação de festa e alegria. Quando terminou a aula da noite, brincamos na praça com Sofhia, Hanna e Betão nossos cachorros , que vibravam com a liberdade.

Interessante é observar a reação das pessoas que passam. A maioria não as vê, para outros é apenas um incômodo,  flores que esmagam sob os pés e sujam a cidade. A dona do imóvel aonde fica meu atelier acha que deveriam ter sido cortadas na reforma da praça: " só servem pra sujar!"

Quanta insensibilidade!

Implacáveis, as velhas senhoras atravessam o inverno cada vez mais quente e aguardam a primavera, quando escrevem melodias silenciosas , poemas em forma de flores que enchem de alegria o ar.

Indiferentes ao que os homens tem feito à natureza, elas continuam cumprindo um ciclo e proporcionando  uma festa para aqueles que têm olhos para ver. ( como minha doce Carolina que entendeu que aquele foi um momento especial, grandes presentes da vida veem em pequenas embalagens.)

                                                                                Bernadeth Rocha

23.09.08

Domingo de feira e de sol



O domingo começou preguiçoso, o cansaço e a incerteza de mais um dia me prenderam entre as cobertas, principalmente porque as frestas da persiana lançavam nas paredes de meu quarto reflexos da árvore que balançava ao vento lá fora.
Não se concretizara as esperanças de um lindo dia de sol que muitas vezes eu já vira depois de um dia de chuva. Por isso nem tive presa. Li um pouco, fiz comida para os pobres cachorros que já estavam se sentindo abandonados, limpei o quintal. Tudo sem pressa. Depois de muita enrolação, fomos à Sorocaba, observando o céu que parecia cada vez mais limpo e chegamos depois das onze. Que surpresa!
 De longe já observamos os corredores práticamente tomados pela multidão, os outros standes em pleno funcionamento e só o nosso fechado.
Que alegria! Arrumamos rápidamente os quadros e as peças de madeira que ainda tínhamos para vender, já com as pessoas entrando e querendo saber tudo: os preços, quem eram as artistas, se tínhamos um atelier, se damos aulas, enfim , foi um dia delicioso de feira, mal tivemos tempo para sentar.
Entre uma venda e outra tomamos uma cervejinha entre as deliciosas árvores do empório ao lado, curtindo um delicioso violão. ( meu marido dizia: " como marido de artista sofre!" entre um espetinho e outro )
Enfim, foi um dia realmente de primavera, o vento só resolveu soprar no fim do dia, mas aí a missão já estava cumprida. Desarmamos o
' circo' rapidinho em comparação às 6 horas que levamos para montar, colocamos tudo nos carros e viemos embora , cansados mas felizes, já pensando nos erros que poderão ser corrigidos para a próxima vez.
(Confesso que enquanto estava naquele frio danado e com o pé dormente por estar molhado eu jurei: " essa foi a ùltima vez!"

                                                                                Bernadeth Rocha